No dia em que conheci o Seu João ele me disse que trabalhou em fazenda. Era bom na lida de gado. O manejo exigia muito do peão; tinha que saber o que estava fazendo. Em uma das fazendas em que ele havia trabalhado, a criação era solta e criada livre. O manejo era periódico. O trabalhoso era reunir a boiada para, às vezes, aplicar vacina, vermífugo, procurar bicheira e encaminhar vaca prenha. Como o campo era vasto e o trabalho era muito, só se tinha hora para sair de casa; para voltar, era só quando o serviço acabasse. Isso podia levar mais de um dia. Isolamento total. Com sorte, encontrava um companheiro bom, prestativo, que fazia o serviço render. Quando menos se esperava, eles estavam de volta na sede, com o relatório pronto.
Na aplicação da vacina, tinha que tocar até o mangueiro e colocar a rês no brete. Serviço pesado. Quando o gado é criado solto, fica sujeito ao ataque dos gatos (onças). Por isso, ele sempre saía para vistoriar a área a procura de carniça ou urubu vagando sobre o resto de carcaça de rês abatida. Outro perigo para quem se embrenha no mato são as “zoropas” (vespas). De uma até se dá conta, mas elas sempre vinham em bando (enxame) e, para piorar, não mandavam aviso. Às vezes, estavam ocultas na macega. Seu João não reclamava do serviço; o ruim era ficar longe de casa. As folgas eram quinzenais — nada de 6×1, era 14×1 —, dependendo do tipo de lida.
Ficar muito tempo sem ver mulher incomodava muito o Seu João. Eu perguntei para ele: “E as vacas não quebravam o galho?”. Ele me respondia que, se dissesse que nunca tinha ouvido falar no assunto, seria mentira, mas que por ele nunca havia passado tal ideia pela cabeça. Ele respeitava a natureza. Mas, sobre o assunto, ele ficou sabendo de um companheiro que ganhou as contas porque descobriram a sem-vergonhice com a criação. De repente, o peão anoiteceu e não amanheceu. O sujeito bom de serviço tinha ganhado o mundo. Laçador de mão cheia, ordenhador, vacinador e o que mais precisasse. Os encarregados que sabiam da história não comentavam nada, ou seja, não podiam falar sobre o assunto.
O dispensado foi flagrado pelo próprio patrão, que decretou em rito sumário: “Junte suas coisas!”. Eu perguntei ao Seu João se alguma vez ele já teve que juntar as coisas. Ele respondeu que sim, mas não pelo mesmo motivo.
Ainda sobre o ocorrido com o peão e a vaca, eu perguntei:
— E o que anotaram na carteira de trabalho dele?
— Conduta inadequada! — respondeu Seu João.
— Benevolente o patrão, hein, Seu João? Não seria o caso de anotar “maus-tratos aos animais”, “estupro de vulnerável” ou “violência sexual”.
Seu João ficou sabendo depois que, pelas qualidades do peão, ele poderia fazer o que fez com qualquer outra vaca, mas não com aquela. O encarregado sabia que o patrão, se não fosse o dono da fazenda, também estaria enquadrado em “conduta inadequada”. O sigilo se quebrou e o patrão caiu na boca da turma.
Corria na boca miúda que se o “tourinho” estivesse na área… Já preparavam a Mimosa!