História de Severinos (1)

A apresentação da qualificação de um trabalho universitário estava pronta, a banca arguidora formada e a data, com dia e hora, marcada. Na véspera, coincidentemente, um dos membros não poderia fazer parte por motivos diversos, que não nos cabe aqui relatar. Fazer parte de defesa de tese era fazer parte de uma defesa de tese, mas de uma qualificação era, e continua sendo, mais que um favor: um sacrifício. Geralmente, os membros convidados guardavam entre si laços de cordialidade, o tal do “uma mão lavando a outra”.

A ocorrência da desistência inviabilizaria a apresentação conforme o programado, devido ao parágrafo contido no regulamento que diz sobre a quantidade mínima de membros que devem formar a banca. Devido ao adiantado anúncio da desistência, correu o orientador atrás de amenizar o dano e prosseguir com o combinado, dentro de uma agenda super apertada de prazos, já vencidos. Ao perceber a insustentável marcação de uma nova data, respeitando as limitações do horário comercial em uma semana de 40 horas, teria que se encontrar uma brecha ou encontrar um substituto.

Geralmente, em uma banca, além do orientador, estariam presentes dois arguidores. Como houve a desistência, por motivos desprezíveis, de um dos membros, um substituto seria chamado às pressas. Na leitura da Ata de qualificação, os membros seriam: Doutor Fulano (Orientador), Doutor Sicrano (primeiro arguidor) e Doutor Celestiano (segundo arguidor) — que passou a ser conhecido como Severino, pois era ele quem aparecia, em cima da hora, saído do banco de reservas direto para a linha de arguição.

O Severino, doutor novato, recém-chegado na instituição, aproveitou as primeiras oportunidades e mostrou a que veio. Quando soube da alcunha pela qual estava sendo conhecido, não desprezou as ocasiões: montou uma arguição genérica, destas que cabem em qualquer trabalho. Afinal, ler duzentas páginas em três horas, de assuntos que fugiam de sua alçada, era uma missão impossível, e, para ele, o jogo da arguição acadêmica virou um exercício de “Cara crachá”. Sem tempo para ler o conteúdo profundo, Celestiano olhava para a cara do aluno, olhava para o crachá do regulamento e focava apenas nas aparências: normas da ABNT, digitação e formatação de páginas. Com essa tática infalível do improviso, ele carimbava a aprovação de qualquer tese em cima da hora, transformando o sufoco da banca em um verdadeiro show de sobrevivência universitária.

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