ANTIDIABÉTICO

Se tinha uma coisa com que o Seu João não se preocupava era com a saúde. Ele foi criado rústico, bruto e sistemático. Em situações de doença para cair de cama a coisa tinha que ser muito forte, mais do que ele. O segredo era o banho frio, a hora certa da alimentação e a medida exata no prato — sem aquele negócio de dieta e regime, que só fazia o caboclo passar fome. E com fome não há organismo que dê conta; o cabra perde o ânimo, esmorece, fica fraco e encosta. Isso sem falar da dose diária da “pura”, contada em doses de cinquenta centavos. O segredo era esse, e nem segredo era: a coisa funcionava na disciplina. A complementação ficava por conta do “comparecimento”, que era a causa da satisfação do ser humano. O resto era trabalho para ocupar a mente e não pensar em besteira, além da gratidão a Deus.

Com o avançar dos anos, algumas dessas rotinas levam a situações em que o organismo cobra o preço. Uma hora a fatura é impressa, com data de vencimento na apresentação. A nota fiscal emitida descrevia: perda de peso, sede intensa, mijadeira e um apetite feroz por doces. Seu João sempre gostou de uma sobremesa, principalmente doce de leite com queijo fresco caipira, ou goiabada com queijo — o tal do Romeu e Julieta —, mas ultimamente a coisa estava desregrada.

Quando ele me descreveu a sintomatologia, veio-me logo à cabeça: isso só pode ser diabetes. Perguntei ao Seu João se as consultas médicas estavam em dia. Ele me respondeu:

— Em dia, em dia, não… Já faz um bom tempo que não converso com o doutor.

Quando lhe disse que aquilo podia ser diabetes, o homem assustou:

— Será, Isluiz?

— Por via das dúvidas, agende uma consulta no Hospital Geral (HG) para fazer nem que seja um exame de sangue, para termos o diagnóstico. Dá para fazer aqueles de farmácia também, quer tentar?

Como ele ainda acreditava nos médicos, decidiu pela consulta. Não deu outra: a coisa estava preta. Ele teria que usar medicamentos para controlar a glicose e o colesterol, além de encarar uma severa dieta hipocalórica. Ou seria isso, ou “aquilo” — e brevemente. Uma sentença de morte em que constava a ingestão de leite desnatado, frutas e carne magra bem passada. Para quem se lambuzava na costelada, no torresminho e no leite gordo caipira, seria uma batalha diária.

Saindo do ambulatório do HG, encontrou-se com um companheiro de longa data, parceiro que há muito tempo não via: um de seus compadres.

— Como vão as coisas? Casou-se de novo? E os filhos? O que você está fazendo por aqui no hospital? Está com uma cara ruim, hein?

O companheiro quase não dava espaço; era pergunta em cima de pergunta, fazendo Seu João se sentir sufocado. Quando lhe mostrou a papelada do médico, o compadre perguntou se ele daria prosseguimento ao tratamento recomendado pelo doutor, e foi logo sentenciando:

— Médico novo, sem experiência, não sabe de nada! Vou te passar um remédio natural que é tiro e queda.

“Se a coisa é natural, não faz mal”, pensou Seu João. Se o tratamento não fizesse efeito, mal também não faria. Experimentaria. Se desse certo, continuaria; caso contrário, iria à farmácia e compraria os remédios passados. Lembrando que o retorno já estava marcado para dali a trinta dias.

— Cê ainda vai para a fazenda? — perguntou o compadre que, diante da resposta positiva, começou a prescrição: — Então cê faz a ordenha e separa um pouco do leite. Eu sei que o compadre é um bezerro velho e vai gostar da receita. Fica ao lado da vaca com o folhão nas mãos. Ela vai soltar uma urinada — toda vaca urina depois da ordenha. Coleta um pouco no folhão com o leite, e nem precisa esquentar. O compadre vai tomar uma copada todos os dias, por uma semana. Se quiser mais, fica por sua conta. Depois, o compadre faz os novos exames e mostra para o doutor.

Seu João se sentiu desafiado. Confiava muito no compadre e decidiu: no dia seguinte, iria amanhecer no mangueiro. Seu João não era o fazendeiro, só era do ramo. Mesmo longe da lida, ainda guardava os laços com a peonada.

Urina pura fica difícil, mas com leite, descia até mais que uma copada. Ele ficou lá pela fazenda por mais de uma semana, sem deixar de se “medicar”. Quando voltou, procurou o enfermeiro e pediu que este lhe arrancasse o sangue.

De exames novos nas mãos, bateu na porta do ambulatório. Como tudo estava tudo dentro dos padrões aceitáveis, foi parabenizado pelo Capitão Médico. A próxima consulta ficaria só para seis meses depois. O doutor fez a recomendação de manter a medicação e a dieta. Seu João, que não se fazia de rogado, foi logo dizendo:

— Palavra de médico é sentença.

Antes de liberá-lo, o médico, um tanto quanto vislumbrado com a eficácia do suposto tratamento, comentou:

— A Metformina está se mostrando um grande medicamento, superando todas as expectativas. Tanto para a diabetes quanto para o controle do colesterol. Mal dá para acreditar que, antigamente, a humanidade já tomou urina de vaca, pura, para se curar de diabetes!

Seu João guardou o segredo e pensou consigo: “Pura não vai mesmo”.

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