A NAMORADA BRAVA

Quando conheci Seu João, ele estava namorando. Inclusive fui apresentado à sua consorte. À primeira vista tratava-se de uma senhora séria, bem trajada e que atendia aos rigores das normas sociais vigentes. Não era nenhuma formosura e nem o Seu João estava em condições de exigir algo melhor. Nas vezes em que partilhamos a mesma mesa transpareceu-me uma relação animada e, às vezes, amorosa. Os dois eram fumantes — primeiro ponto em comum. Outros pontos em comum eram a viuvez, os filhos e a casa própria onde moravam sós, com os filhos por perto. Com aquela idade o relacionamento só se encaminharia para um casamento com união de escovas de dentes, quarto com cama de casal e mesa posta à espera para o almoço. Não querendo me intrometer, mas acho que as pretensões eram outras, só não sei se de ambas as partes.

Seu João confidenciava comigo e, de forma satisfatória, relatava sobre seu novo relacionamento. Eu mesmo não cheguei a encontrá-lo em outras companhias, e já havia um bom tempo desde que nos conhecemos. Dizia-me ele: “Pois é Isluiz, tô de boa com a fulana”. Sinto muito, mas vou ter que tratá-la assim, pois não teve jeito de me lembrar do nome dela. “Isluiz você sabe que ela mora sozinha, em uma casa no mesmo quintal em que a filha mora? Pois é, e lá eu tenho me encontrado com ela. No começo, eu chegava cedo, almoçava e, antes de anoitecer, já estava aqui em casa”. “Tem dia que ela vem para cá, mas só não ficou no primeiro dia. A filha veio buscar”. Até aquele ponto cada um ocupava o seu território conquistado, com ocasionais permanências breves para não provocar a ira da vizinhança. Para não ficar com cara de monólogo, eu intercalava as minhas falas nas deles com: “Que beleza”, “Benza Deus”, “Estimo que permaneça”.

O Romantismo tende a zerar os ponteiros e, neste caso, começou com uma briguinha aqui, outra acolá, sempre por implicância dos filhos. “Que pouca vergonha, depois de velhos…”, diziam as más línguas. Seu João não tinha sorte, pois quando era (bem) mais novo sempre teve alguém para implicar com sua vida e chamá-la de “pouca vergonha”. Quando a fase do amor eterno acabou entre eles, os “quebra-paus” se tornaram constantes. Houve casos de agressões — em um tempo sem Lei Maria da Penha — estando o Seu João sempre na defensiva, apanhando feito cachorro sem dono. Mas, como ele mesmo dizia, nada que uma boa conversa não acalmasse os ânimos; logo estariam juntos, fumando, tomando uma cervejinha em casa. Mas, neste caso, só ele virava o caneco. A fulana era evangélica e se permitia apenas ao fumo; o resto ela teria que ocultar até que se provasse o contrário.

O romance durou o bastante para ficar inesquecível; aquela foi uma das boas — e más — fases que ele carregou pela vida. Uma das últimas vezes em que ocorreram os desentendimentos eles estavam lá no Cerradinho, bairro da residência do enamorado. O pau comeu com falatório e xingamentos que, na versão de Seu João, surgiram do nada. De repente a doida desembestou a falar alto, a xingar quem estivesse pela frente. Ele, ciente da capacidade dela, tratou logo de buscar uma área de fuga, indo para os fundos do quintal com alcance para o portão lateral e facilidade de ganhar a rua. De lá, ouvia barulho de mobília quebrada, vidraça estilhaçada e porta batida. O que motivou tamanha ira? Seu João não me contou, só justificou como um acesso de loucura. Quando a coisa acalmou, ele viu o carro da filha dela estacionar no portão da frente e nele embarcar o amor da vida dele.

Como não queria juntar os estilhaços e nem arrumar a bagaceira formada, ele achou melhor ir se acalmar, fumar seu cigarrinho e, quem sabe, tomar uma para esfriar a cabeça. O boteco do Tatoo era quase seu vizinho e estava sempre aberto para atender a clientela. Foi lá, puxou uma cadeira, sentou-se junto à mesa e pediu para descer uma. A metade do primeiro copo estava no trajeto, mas foi só o que ele pôde degustar. A cadeirada veio, segundo ele, não sabe de onde, mas bateu de um jeito que quase morre afogado no copo de Antarctica.

Era a fulana, que ele mesmo vira embarcar no carro da filha e sair cantando pneus. Depois de quebrar a casa do Seu João, estava ali para, segundo ela, “quebrar a cara desse desavergonhado”. Quando Seu João me disse do ocorrido, ele me contou mais: que ela gritou para os que estavam no bar e aos transeuntes que aquilo — apontando para ele — não era um homem de verdade, e que “onde já se viu, foi só eu virar as costas e ele já estava no bar”.

“Isluiz, além da cadeirada nas costas, ela virou a mesa, literalmente, com tudo o que estava em cima. Depois que ela foi embora, tomei só mais uma e tive que pagar por duas.”

Depois do ocorrido, não existia mais clima para continuar com ela. Ele cansou de relevar muita coisa.

“As pessoas me aconselhavam a sair daquele relacionamento tóxico, que ela não valia nada, que ela precisava se tratar e que eu corria risco de morte se continuasse com aquele namoro. Mas sabe Isluiz, chega um ponto na vida do homem em que, se ele descobre o jeito fácil de conseguir as coisas, ele vai sempre fazer aquilo. Eu havia chegado a uma idade em que não estava mais dado a conquistas; queria logo saber dos finalmentes, ou de como consegui-los, e não medir esforços para isso. Um dia Isluiz, você vai chegar lá.”

“Minha hora chegará Seu João? Só espero que eu não tenha que encarar nenhuma doida.”

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