Trabalhar já foi o forte do Seu João. Trabalho pesado, exigente, daqueles em que se começa cedo para aproveitar melhor a luz do dia e só se para por não enxergar mais um palmo à frente. Essas regras se aplicavam à lida no campo, algo que ele sempre fez na vida. No tocante ao trabalho em centros urbanos, ele já não podia dizer o mesmo. A começar pelo fato de que veio para a cidade já aposentado. Se a necessidade surgisse, ele toparia um bico aqui, outro ali, e assim tocava a vida — nada por desespero financeiro, pois, se tivesse o suficiente para o cigarro, estava tudo certo.
O negócio da garaparia apareceu como uma oportunidade de “pai para filho” — mas, neste caso, foi de “filho para pai”, já que o empreendimento foi adquirido pelo filho do Seu João e doado a ele para exploração econômica. O negócio foi, a princípio, rejeitado. Porém, com o funcionamento diário, ele foi adquirindo os conhecimentos necessários para melhor administrar o ponto. Ele descobriu que dava até para moer cana e vender como caldo de cana (garapa). Dava até para…? Seu João com seu olhar clínico logo descobriu o universo envolvido no negócio garapeiro: quem vendia a cana, quanto valia uma jarra de caldo, o acréscimo do limão ou do abacaxi, o horário das linhas de ônibus, a movimentação financeira e, o mais importante, a disponibilidade para uma boa prosa! Ali, naquela sombra do hibisco, os problemas pessoais eram contados com sinceridade, na maior intimidade, entre interlocutores que acabavam de se conhecer. A garaparia, na verdade, era um verdadeiro confessionário fora da sacristia da igreja.
Uns iam para reclamar da vida, outros para contar vantagem e falar mal dos outros, ou para enaltecer seus feitos e vangloriar-se de ser o que eram — tipo de gente que o Seu João, baseado em sua própria vivência, bem interpretava como uns miseráveis. Se surgisse a oportunidade, haveria sempre um conselho; e se não surgisse, haveria também. Seu João às vezes atravessava o samba na avenida e dizia para aquela mulher mal-amada: “Larga desse ingrato, arrume outro melhor!”. E se a interlocutora perguntasse onde, a resposta já estava na ponta da língua: “Às vezes está bem na sua frente, você é que não quer ver!”. E assim começava a lambição de selos: se colar, colou! Se aparecesse um negócio avulso para ser atendido, a cana teria que ser “moída” bem longe da garaparia.
Como o financiamento do negócio foi proporcionado pelo filho empreendedor, nada melhor do que acompanhar a evolução financeira da empresa. No início, os resultados não foram os melhores. Como se tratava de um investimento, os lucros deveriam aparecer durante o processo — o que também não aconteceu. Os negócios de hoje sempre levam em consideração o retorno financeiro, nunca a satisfação pessoal, a saúde dos colaboradores, a alegria dos clientes ou a função social do negócio; importa apenas custos, lucros e crescimento.
— Isluiz, o que eu faço para melhorar o movimento da garaparia? Meu filho está me cobrando o ganho financeiro do investimento. Você sabe o que eu posso fazer?
Em se tratando de empreendedorismo, desta vez o Seu João encontrou a pessoa certa:
— Seu João, faz o seguinte: na placa de “Caldo de Cana”, troca um “C” pelo “X”! Você vai ver, a coisa vai vender mais do que pão quentinho na padaria em dia de chuva.
Dias depois, ele me encontrou:
— Isluiz, se eu te disser que não melhorou nada, você não vai ficar chateado comigo?
— Mas o que o senhor fez, Seu João?
— Isluiz, eu escrevi “Xaldo de Cana”, mas o povo passa e fica é rindo!