
Todos os anos, o presépio reaparece. Ele ocupa um canto da sala, recebe iluminação especial e desperta certa ternura. É uma cena conhecida, quase confortável. Mas talvez o presépio não tenha sido feito para nos deixar confortáveis.
Há algo profundamente contraditório naquela manjedoura. O Filho de Deus nasce pobre, exposto, sem qualquer sinal de poder. Um Deus que escolhe a fragilidade como linguagem. E, ainda assim, nós o cercamos de excessos, consumo e aparências, como se precisássemos compensar aquilo que Ele deliberadamente dispensou. A contradição se aprofunda quando o presépio se torna apenas decoração. Monta-se a cena, mas não se assume sua lógica. Louva-se a simplicidade, mas vive-se a ostentação. Venera-se o Menino, mas evita-se o pobre. O presépio é exaltado, enquanto sua mensagem é silenciada no cotidiano. Talvez por isso ele continue sendo um sinal incômodo. O presépio revela um Deus que não se impõe, mas se oferece; que não domina, mas serve. Um Deus que transforma cada pessoa e cada lugar em possibilidade de encontro, especialmente onde há precariedade — como um presépio improvisado por quem vive à margem da cidade, debaixo de um viaduto.
A maior contradição do presépio não está na manjedoura, mas em nós: quando o contemplamos sem permitir que ele desmonte nossos tronos interiores. Celebrar o Natal, afinal, não é apenas montar o presépio. É aceitar o desafio de vivê-lo.
Com apoio editorial do ChatGPT (OpenAI).