O APAIXONADO

Certa vez, o Seu João me chamou no particular e me perguntou sobre uma fulana. Desta vez, vou ter que usar “fulana” devido ao sigilo; vai que ela fica sabendo e querer passar o assunto a limpo. Seu João queria saber se ela era casada ou se estava em um relacionamento. Eu, para não perder a oportunidade, respondi-lhe com outra pergunta:

— Você é ciumento? Ou gosta de exclusividade?

No final, tudo era motivo de boas gargalhadas. A fulana era bem vistosa. Inclusive, parabenizei-o pelo bom gosto e o elogiei pelo refinamento, considerando a idade. Seu João se gabava, mas pedia sigilo absoluto: vai que ela já estava comprometida… Ela era casada, tinha filhos, mas, como lhe antecipei: era! No momento, estava se separando. O relacionamento andava conturbado; acho que até havia uma medida protetiva, pois o rapaz andava meio violento. A essa altura, já não dividiam o mesmo teto. Seu João se sentiu aliviado e, por que não dizer, mais à vontade para dar prosseguimento. Ele também estava, como diz o velho cantor sertanejo, se divertindo com qualquer paixão. Eu fiquei admirado com a seletividade dele. Com tanta gente na faixa etária dele, inclusive mais acessível, fácil, buscando relacionamento e ele preferiu incorporar o “Bode Velho”, que só gosta de brotinho.

Ela frequentava os eventos sociais em que uma das filhas do Seu João estava presente, já que trabalhavam na mesma repartição. Nos finais de semana, sempre alguém do órgão público cuidava de reunir os colaboradores. Seu João resistiu a acompanhar a filha no começo, mas, depois que aconteceu o primeiro encontro — o tal amor à primeira vista —, ele passou até a cobrar a filha sobre o próximo churrasco. Seu João me encontrava por lá porque eu também dava expediente naquela repartição.

— O que você acha dela? — perguntou-me assim, meio na surdina. — Eu estava pensando, depois do que você me disse, em propor um encontro. Você acha que eu tenho alguma chance?

Eu, na minha vasta experiência como cupido, fui logo dizendo: “Quem não se arrisca…”. Expliquei que não era tão íntimo dela e que quem saberia dizer melhor era a própria filha dele. Seu João saltou de banda:

— Deus me livre! Se ela souber das minhas intenções, vai ser um “Deus nos acuda”. Vão querer me interditar!

Mas a verdade seja dita: o homem estava apaixonado. Agora que sabia das particularidades dela, achava que poderiam engatar um romance.

— Isluiz, você podia chegar nela e abrir o meu jogo, nem que seja para marcar um encontro.

O homem estava afoito de tesão, queria nem que fosse um segundinho com ela.

O churrasco da vez seria na chácara de uma das amigas de serviço. Lugar afastado, próprio para passar o dia, fazer uns passeios na natureza e assar uma carninha. A caravana pegou a estrada e, lá no local, encontrei-me com o Seu João. Eu fui com a patroa; ainda não tínhamos filhos. A primeira coisa que fizemos foi tirar o pó da garganta. O dono da chácara, pai da anfitriã, disponibilizou uma garrafa daquela que ele tomava para espantar o frio na hora do banho. Em outras oportunidades, eu e o Seu João, sempre que podíamos, tomávamos uma(s).

Para surpresa de zero pessoas, quem também veio apreciar a natureza na chácara naquele sábado foi a musa, em pessoa. Como viera de carona, estava só. Seu João não conseguia se conter. Eu fui logo lhe adiantando que os astros haviam conjurado a favor: hoje ela escaparia de raio, mas dele seria difícil! Eu achava que não havia mais ninguém demonstrando interesse nela. Ele tinha uma avenida aberta!

Nós participamos do passeio guiado, que foi conduzido pela anfitriã. Seu João aproveitou a deixa para fazer uma missão de reconhecimento.

— E aí, Seu João? Já viu se tem um lugar apropriado?

Quando estávamos iniciando a prosa… a fulana caminhou em nossa direção. Achei melhor deixar os dois a sós para não atrapalhar — como diz o ditado, “muito ajuda quem não atrapalha” — e fui tomar mais uma dose, porque acho que, daqui a pouco, iria “tomar banho”. Vi de relance, a uma boa distância, que rolava uma conversa. O que falaram…? Não fiz ideia.

Mais tarde, reencontrei-o:

— Isluiz, a realidade é essa: ela é uma pessoa muito mal-amada, o que eu acho um desperdício, e está atravessando um momento tenebroso. Vi que ela está carente, só não sei se dou conta de assumi-la.

— Então não aconteceu nada?

— Não teve clima. Só fumamos uns três cigarros e ficamos por ali olhando a paisagem. Depois chegou alguém e ela desviou a atenção.

— Então ela já tinha reparado nas suas (más) intenções?

— Isluiz, eu não consigo disfarçar. Deve ser isso.

O churrasco estava bom, tomamos mais uns goles e voltamos à realidade da cidade.

Outro dia, encontrei-me com o Seu João, desta vez bem mais informado sobre a fulana. Ele soube que o ex-marido não queria entregar o carro dela. A justiça teve que emitir uma ordem de busca e apreensão. Só que, antes de o veículo ser levado, o corno passava acelerado, de propósito, nas lombadas eletrônicas só para ser multado. Quando ela pegou o carro de volta, na hora de fazer a transferência para a venda, a “capivara” de infrações apareceu. O valor a ser pago ficou bem próximo do preço do próprio patrimônio.

O corno ligou para saber se ela tinha gostado da lição e disse que aquilo era para ela aprender quem mandava. A fulana se fez de “sonça” e disse que não sabia do que ele estava falando.

— É sobre as multas! — gritou o infeliz do outro lado da linha.

Ela respondeu que nem se lembrava mais disso, que já estava tudo pago porque conheceu alguém da polícia que deu um jeito e normalizou tudo.

— Vai saber o que ela deve ter feito… — comentou Seu João.

O corno se mordeu inteiro de ciúmes, disse que ela o pagaria e a xingou de tudo quanto foi nome. Depois dessa, Seu João acalmou os ânimos amorosos e decretou o fim do interesse:

— Deus me livre… O que uma mulher dessa não pode fazer?

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