A MULHER PEGAJOSA

O passeio seria uma excursão em ônibus fretado rumo a Piraputanga, na Pousada do Sol Amarelo. O grupo era composto, em sua maioria, por famílias, mas nada impedia outras configurações. Cada uma tinha seus integrantes acomodados em poltronas próximas umas das outras. Eu estava ao lado da patroa, logo nas primeiras fileiras, e o Sêo João um pouco mais atrás, junto da filha e do genro. Bem perto deles viajava a figura mais descolada da excursão: Dona Bartira e sua filha. Descolada no sentido do desprendimento da língua; além de não parar de falar, seu repertório era chulo. O baixo-calão ali já estava um patamar acima, ficava lá na lama mesmo. Isso sem falar nas atitudes pegajosas de tratar as pessoas: “meu querido”, “meu benzinho”, “meu amor”. A boca funcionava em conjunto com as mãos: abria a boca, apertava a mão. Ela dizia que só se comunicava com alguém olhando nos olhos e, às vezes, bem perto deles. O azarado da interlocução teria que aguentar, com sorte, o hálito alcoólico oriundo de sua inseparável latinha de Skol — mas isso só nas horas de folga, porque na função que exercia lá na repartição, a cara tinha que estar limpa. Trabalhara por muito tempo na recepção, o cartão de visitas da instituição. Lá, o colóquio era outro.

Chegando ao destino, os participantes tiveram que se organizar nas acomodações, onde o grau de parentesco prevaleceria. Essa organização fez-se necessária logo na chegada, pois ficaríamos o dia, a noite e embarcaríamos no final da tarde do dia seguinte. Até lá, muitas acomodações se desacomodariam.

A pousada oferecia vários atrativos, mas o principal era o contato com a natureza: trilhas, praia de rio, passeio a cavalo, redes à sombra e piscinas naturais. O chamariz principal ficava por conta da culinária, onde atuava um chef de reconhecimento internacional e, pela proximidade com o Rio Aquidauana, a pedida era o peixe. Tudo isso desfrutado em boa companhia. Sêo João também desfrutou, mas não sei se em boa companhia. Se eu disser que Dona Bartira se encantou por ele e que, a ele em especial, o “meu amorzinho” era mais sentimental, o resto da história já estaria contada. Dona Bartira se desvinculou da filha (sorte desta!) e se vinculou ao seu novo “meu amorzinho”. Ela queria até andar de braços dados, mas com o Sêo João isso não rolou. Poucas vezes foram vistos juntos em público, mas nas proximidades de macegas, corixos e barrancos, há quem diga que estavam bem próximos daqueles locais — que fique bem entendido. Porque, se eles chegaram a se aproximar mais e alguém tivesse visto, não teria sido nada às escondidas. Devo dizer que estavam sempre a três; não podemos esquecer a latinha de Skol.

Antes do almoço de domingo, na hora de tomar uma para abrir o apetite, Sêo João me confidenciou na surdina:

— Isluiz, o que eu faço? A Bartira não sai do meu pé. Só quer saber de ir lá para a beira do rio, passear na trilha…

— Você não está gostando, Sêo João? Ou já conseguiu o que queria? — perguntei.

Entre uma pergunta e outra, a gente servia mais uma dose e punha goela abaixo. Ele me confidenciou que já estava quase na hora de ir embora e temia:

— Vai que essa mulher queira continuar com isso lá em Campo Grande? Ninguém aguenta um negócio desses!

Eu lhe disse, rindo:

— Sêo João, você vai ter que abrir o jogo com ela. Diz que alguém te espera no retorno e que foi bom enquanto durou. Ou seja: enquanto estava duro, foi bom; agora a relação amoleceu.

Gargalhamos bastante, mas, na verdade, o homem estava genuinamente preocupado com a situação e, pior, com o fim dos seus cigarros. Não havia mais Fox nem na venda da pousada e nem em Piraputanga. Se você não sabe, carteira vazia preocupa menos um homem do que terminar com alguém no auge do sufoco.

Sêo João procurou montar as frases na cabeça. Preparou-se para os questionamentos que ela faria e para o tamanho da vergonha pública caso ela fizesse um escândalo. Ele criou coragem e chamou a Bartira para um canto, perto do ônibus. Com o tom mais sério que conseguiu ensaiar, disse a ela que o que aconteceu entre eles teria que ficar por ali, que tudo tinha sido um “lance”, uma coisa passageira de fim de semana.

Para a surpresa do velho peão, Bartira deu um gole na sua Skol, soltou uma risada rouca e o surpreendeu:

— Fica sossegado, meu amorzinho. Eu também só queria um sopro de vida nesse cansaço de Campo Grande. O que é de Piraputanga, morre em Piraputanga. Mas ó… quem sabe para a frente não tem outra excursão e a gente não acende esse fogo de novo?

Sêo João respirou aliviado, mas saiu dali resmungando comigo, com aquela sua ironia fina de quem não queria perder a pose:

— Isluiz, a mulher quase acaba com o meu juízo, me gasta o estoque de cigarro, e no fim quem levou o fora fui eu? Mulher urbana é bicho perigoso demais. Me arruma um cigarro aí, senão quem vai ter um troço sou eu.

Entramos no ônibus de volta. Pelo vidro, o Rio Aquidauana ia ficando para trás, e o Sêo João, na sua poltrona, olhava a estrada em silêncio. Acho que ali ele entendeu que, na lida das paixões, a gente entra achando que é o boiadeiro, mas, de vez em quando, a vida faz a gente de boiada.

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