PREFÁCIO DO LIVRO “ISLUIZ E SÊO JOÃO”

Toda história que merece ser contada nasce de um encontro. Este livro não é uma biografia, tampouco um relatório de fatos frios. É, antes de tudo, o testemunho de uma amizade que desafiou os ponteiros do relógio e encontrou morada nas calçadas, nos botecos e nas sombras dos hibiscos de Campo Grande.

O homem que inspira estas crônicas chamava-se João. Sêo João. Um caboclo criado no bruto da lida do campo, rústico, sistemático e detentor de uma sabedoria que não se aprende nos bancos acadêmicos, mas sim no manejo do gado e no estalar de um fumo de rolo. Fomos vizinhos de bairro. Ele, com suas duas décadas a mais de estrada, carregava a vivência de quem já tinha visto o mundo dar muitas voltas. Eu, que ainda tateava os caminhos da vida urbana e do serviço público, encontrei nele um porto seguro para a boa prosa, o riso solto e as confidências mais íntimas.

Para caminhar por essas memórias e preservar o recato de quem cruzou os nossos caminhos, precisei dar vida a um alter ego. Nas páginas que se seguem, não sou o Aloízio; sou o Isluiz. E esse nome guarda uma das homenagens mais bonitas da minha jornada. Ele nasceu do carinho e da convivência com um outro companheiro, também já falecido: o Seu Antônio Roster, valoroso veterano da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Por conta da acomodação de sua nova dentadura, Seu Antônio precisava pronunciar meu nome de boca quase fechada. O som que saía de seus lábios era exatamente este: “Isluiz”. Aproveitei a deixa. Senti-me tão carinhosamente representado por aquela pronúncia que adotei o apelido como a voz narrativa deste livro.

Seu Antônio me deu o nome literário; Sêo João me deu o enredo.

As crônicas aqui reunidas oscilam entre o humor rústico e as marcas profundas que o tempo deixa em cada um de nós. Da namorada brava ao causo folclórico da fazenda; das fofocas de repartição ao confessionário improvisado de uma garaparia de bairro. Sêo João viveu intensamente, amou do seu jeito afoito, errou, acertou e, acima de tudo, nunca perdeu a pose de boiadeiro diante das rasteiras que a vida urbana lhe dava.

Sêo João partiu sem tomar a saideira. Não houve tempo para o último brinde, nem para o último cigarro Fox compartilhado na calçada. Mas enquanto houver memória e papel, ele continuará vivo, bem ali, sentando-se à mesa do boteco do Tatoo, puxando uma cadeira e pedindo para “descer mais uma”.

Ao meu querido amigo João, dedico cada linha deste abraço em forma de palavra.

Aloízio de Oliveira

Campo Grande, MS.2026

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