A NAMORADA INDÍGENA

Esta vai ser como um epílogo. O Seu João esteve lá em casa, recém-chegado da cidade de Miranda. Eu sabia, não por ele, que ele estava de rolo com uma mirandense. Disseram-me que, desta feita, tratava-se de uma indígena — segundo os padrões adequados da norma linguística culta — que vinha a Campo Grande comercializar sua produção. Vendia feijãozinho, milho verde e pequi, na época. Fazia o itinerário lá pelas bandas do Cerradinho, onde a freguesia era forte, e, dentre eles, o meu chegado: Seu João. Com a baciada na cabeça, como boa bugra que era, não reclamava do peso e nem do desajeito. As descidas e subidas apareciam quando o trajeto atravessava a Avenida Duque de Caxias e rumava para o Jardim Eliane.

De bacia vazia e à espera da condução, as nativas acampavam na calçada, nas proximidades do portão da casa do sempre atento Seu João. Ele, despretensiosamente, batia no maço de Fox, de lá tirava o bendito cigarro e, na fumaça da baforada, se achegava, galanteando. Uma delas caiu na lábia e espichou a conversa. Seu João não fazia ideia do que fazer, como conversar, o que oferecer ou como se comportar. Ele também caía na gargalhada, leve, acompanhando a interlocutora. Assim foi a primeira conversa, o primeiro encontro. Onde Seu João amarraria o burro desta vez?

Ele me disse:

— Conheci uma pessoa muito legal, gente bacana mesmo. Morava lá perto de Miranda. Ela vem toda semana por aqui. Outro dia me pediu um copo d’água e eu ofereci também uma cadeira. Foi aí que a prosa engatou. Já fui à casa dela, ela mora na aldeia. Me apresentou para os parentes. Voltei no mesmo dia. Eles são muito sistemáticos. Propus para ela um relacionamento. Por enquanto só peguei na mão, e olha lá, depois de muito custo. Estou me admirando: depois de velho, voltei a sentir aquela “formigação”, aquela ofegância, chega até a dar palpitação.

Eu o cumprimentei pela façanha:

— Cansou do trivial, Seu João? Está procurando uma lisinha embaixo e uns caídos em cima?

Caímos na gargalhada. Ele me garantiu que não tinha nenhuma má intenção, mas emendou:

— Se fizesse muita questão… estamos aí! Só acho que vai faltar saúde, Isluiz. O estômago “véio” já não é mais o mesmo. Estou cheio de azia, umas cólicas atravessadas… Outro dia eu quase morri. Eu estava bem, mas fui aceitar uma chipa da Joice (o nome dela era Joice) quase na hora de embarcar no Expresso. De Aquidauana para cá, foi só por Deus e um copo de boldo. Paramos lá no Redondo e eu, desembestado, corri para vomitar na lateral do ônibus. Ainda bem que deu tempo, se não ia sujar o corredor. Foi o que me aliviou, mas só aliviou. Eu não sabia que morava tão longe, porque a viagem foi longa. Consegui chegar e desembarquei ali no posto Shell. Em casa, fiquei quieto, até alguém me levar ao HG.

Eu lhe perguntei:

— Você já estava ruim ou foi depois da chipa?

— Piorou depois da chipa.

— Pois é, Seu João… Quando a moça leva o pretendente em casa, ela serve a chipa que ela mesma enrola na coxa. Faz isso pelada, para a ponta tocar de propósito na perseguida. Depois de assada, é servida como matula para o pretendente levar de viagem. É uma tradição. Se não cair bem no estômago do homem, é interpretado como um livramento para a família dela. O pretendente não volta mais, nem para pedir outro pedaço. Pode ser isso o que te aconteceu.

— Na verdade, Isluiz, foi a última vez que fui por lá. Não sei se ela ainda vem vender feijãozinho por aqui.

Para mim, Seu João já não gozava de boa saúde. A última pinga nós sentamos juntos para tomar. Naquele dia, ele foi generoso com o Santo; acho que não tomou nada. Despediu-se com pressa, dizendo que teria exames a realizar.

Depois disso, nunca mais nos falamos. Ele foi internado, fez uma cirurgia na barriga e não tomou a saideira.

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