
Os integrantes aos poucos se vão, mas a obra é imortal. Para mim, os ecos do Village People são um portal que me transporta direto aos meus 12 anos. Naquela época, o mundo cabia em um rádio potente de cinco faixas, sintonizado nas ondas que animavam minha adolescência — ainda ouço a voz do locutor Wilson de Aquino em sua programação vespertina com o “Village”. Dizer adeus a Victor Willis é dizer adeus a um pedaço da nossa própria juventude. Quem de nós, da geração 50+, não se vê de volta aos anos 70 ao ouvir os primeiros acordes de Y.M.C.A.?A insistência dos meus bilhetes no bolso do meu pai deu certo. Quando em casa chegou uma sonata, ele me trouxe um compacto. No lado A, “In The Navy”; no lado B, “Manhattan Woman”. Aquele vinil foi o combustível de muitas festas. Eu, no auge da empolgação, fazia-me de papagaio de Victor Willis, acompanhando o vocal com um microfone improvisado de cabo de vassoura. O cheiro do vinil rodando na sonata e o cabo de vassoura no palco improvisado da sala são memórias que o tempo não apaga. Victor era o “policial”, mas para nós, era o mestre de cerimônias da alegria. Ele transformou siglas e arquétipos em hinos de celebração. Amava-os naquele tempo e os amo ainda hoje. O vinil se perdeu, mas a tecnologia me reaproximou deles. Hoje, nas festas da minha geração, a pista incendeia quando eles surgem. Com o tempo, descobri que o hino Y.M.C.A. não era apenas uma dança, mas uma referência à Associação Cristã de Moços, instituição centenária que busca promover jovens em situação de vulnerabilidade. Victor Willis, o eterno “policial” e a mente criativa por trás das composições, nos deixou em junho de 2026. Ele liderava aquele grupo icônico — com Felipe Rose (índio), Alex Briley (soldado), Glenn Hughes (motociclista), David Hodo (operário) e Randy Jones (cowboy) — que representava os arquétipos da cultura americana que tanto nos fascinava. Recentemente, sua voz silenciou após uma breve e agressiva doença, mas será difícil tapar os ouvidos aos ecos que ele deixou. Suas músicas sempre me puseram para cima. Para Victor, meu último e saudoso “Go West”. Hoje as pistas de dança perdem um pouco do seu brilho físico, mas ganham uma lenda. Descanse em paz, Capitão.