O PARÊNTESIS

Há algo muito humano quando tento dar nome a um sentimento: não foi tristeza apenas, não foi admiração apenas — foi uma espécie de chamado silencioso. Histórias como esta nos desinstalam. Elas não fazem barulho — fazem pergunta. Quero aprender a não transformar a emoção em espetáculo, mas em reflexão. Escrevo quando encontros como este me desorganizam por dentro. São eles que abrem os melhores parêntesis. Fui a uma colação de grau e voltei para casa com um parêntesis aberto. A cerimônia seguia o protocolo: discursos, homenagens, fotografias e promessas de futuro. Entre os formandos, um nome recebeu aplauso mais demorado. A turma levava o nome de um homem que ali estava aplaudido— frágil no corpo, firme no olhar. Ele concluía o curso enquanto o seu tempo se concluía. Durante a graduação, recebeu o diagnóstico de dois cânceres agressivos. O prognóstico não oferecia esperança longa. Ainda assim, não interrompeu o sonho. Seguiu assistindo aulas, entregando trabalhos, fazendo provas. Não adiou o que podia viver. Naquela noite, recebeu o diploma. Pouco tempo depois, chegou a notícia de sua partida. Encontrei o filho dele naquela mesma cerimônia. Ele foi meu aluno. Hoje é professor, meu colega na educação inclusiva. Em outros dias, ele me falara da gravidade da doença do pai — mas sempre com uma serenidade que não era negação; era aceitação ativa. O pai estava vivo. Enquanto estivesse, viveria. Voltei para casa pensando nos meus próprios adiamentos. Quantas coisas deixo para depois como se o depois estivesse garantido? Quantos sonhos organizo em gavetas rotuladas “quando der”, “quando sobrar tempo”, “quando for mais seguro”? Vivemos como se a vida fosse um texto longo, quando talvez seja apenas um parêntesis entre dois silêncios. Aquele homem não negou a sentença médica. Também não fez dela o centro de sua história. Continuou escrevendo enquanto havia páginas. Não viveu como quem espera escapar do inevitável — viveu como quem honra o agora. O inevitável alcançará a todos. A diferença talvez esteja na postura. Há quem morra antes da hora, paralisado pelo medo. Há quem viva até o último dia, mesmo sabendo que ele está próximo. Aquela formatura não foi apenas encerramento de curso; foi testemunho. Não sobre câncer, mas sobre decisão: a decisão de não reduzir a vida ao diagnóstico. De não adiar o sonho porque o calendário encurtou. De permanecer inteiro enquanto havia tempo. Desde aquela noite, tenho pensado nos meus próprios parêntesis. O que ainda posso escrever neles? O que estou deixando de viver por acreditar demais no amanhã? Talvez não nos caiba controlar o ponto final. Mas ainda nos cabe escolher o que colocamos entre as margens. E, enquanto houver linha, que haja coragem.

Revisão crítica e apoio editorial realizados com o auxílio do ChatGPT (OpenAI).

(Visited 1 times, 1 visits today)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *