
Rezo a Via-Sacra como quem percorre a própria vida. Cada estação não está apenas dentro de paredes sagradas; estão espalhadas pelos dias comuns, pelas notícias que não chegam, pelas que chegam demais, pelas perdas pequenas que se acumulam até pesarem como cruz. Na primeira estação, sempre há um julgamento. Nem sempre é público, às vezes é silencioso, feito em um tribunal íntimo do medo, onde eu mesmo me condeno por não ser suficiente. Depois vêm as quedas. E eu descubro, nas dores, que cair não é exceção, é parte do caminho. Cai-se quando a força acaba, quando a fé oscila, quando a esperança fica pesada demais para ser carregada sozinha. Há também os encontros. O olhar de Mãe, que pode ser o de alguém que ama mesmo quando não entende minhas escolhas. O gesto de Simão que surge na forma de um amparo que segura um pedaço da minha cruz sem me fazer perguntas. Mas confesso: em muitas orações eu peço atalhos. Peço que os sofrimentos passem logo, que as estações difíceis sejam puladas, que o peso seja aliviado sem que eu precise atravessá-lo. É como se eu dissesse: “Senhor, deixa-me ir direto ao Calvário. Se a cruz é inevitável, que seja breve.” Esqueço-me de que o caminho também salva. Que não há ressurreição apressada. Que a glória não nasce do salto, mas da travessia. A morte na cruz não é o fim, mas uma passagem que não pode ser fingida. Há algo que precisa morrer: o orgulho, a ilusão de controle, a falsa autossuficiência. E só depois — só depois — é que a pedra se moverá. A ressurreição não acontece sem as estações difíceis. Ela acontece porque eu as atravessei. Hoje peço menos atalhos e mais coragem. Se a Via-Sacra é inevitável, que eu a percorra inteira. Com quedas, com ajuda, com lágrimas, mas também com esperança. Porque sei: ao final do caminho não está apenas a cruz. Está a vida que recomeça do lado de dentro do sepulcro vazio.
Revisão crítica e apoio editorial realizados com o auxílio do ChatGPT (OpenAI).